O incrível blog de Solineuzza & Delaidinha , com participação especial de Dagmar das Dores e Pai Carlinhos de Xangô.


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26/01/2009 08:57
LEITURA

Desde que fui pela primeira vez no museu da língua portuguesa, eu querioa muito ler Clarice Lispector. A exposição provisória era sobre esta grande escritora, mas que eu nunca lera nada dela. Lembro bem que as paredes eram forradas de frases do seu livro de crônicas: "A Descoberta do mundo". Eram frases muitas vezes sarcásticas, depressivas, cruéis, mas muito, muito honestas.

Quis durante muito tempo conseguir uma cópia deste livro. Acho que até estava com edição esgotada porque não consegui comprar via internet e comecei a procurar nos sebos. Foi um tempão procurando até que desisti.





Sexta-feira, no aeroporto, encontrei! Claro que comprei. Agora, leiam um texto que ela escreveu faz quase 40 anos....

"Chacrinha?!"

"De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora.

E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante — falta-lhe imaginação ou ele é obcecado.

E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi. Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha?

Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu quereria um povo mais exigente."


Eu, que adoro TV, não pude deixar de concordar que nada mudou nos últimos 40 anos. Nadinha....
enviada por delaidinha






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