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27/11/2007 10:29
E a piada perde a graça

Eu adoro a série "pracas do brasiu" do Kibeloko. Adoro mesmo. Aliás permanece como uma das poucas sacadas bacanas do kibeloko. O problema é que neste exato momento a série remete a uma discussão do último final de semana com alguns amigos professores. Professores prensados entre o dever do ensinar, o sistema que não quer ensinar e o governo que não quer pagar. O sistema de ensino hoje responsabiliza o professor de todo e qualquer desvio do aluno. O aluno não tem obrigação alguma, a família não tem obrigação alguma, a sociedade não em obrigação alguma. Não, esperem, tem sim. Tem a obrigação de exigir que o o professor presenteie o aluno com um diploma ao final do curso. Tenha ele a mínima capacidade. Ou não.
Pela lógica atual do ensino, creio que carteira de motorista também seja um item dispensável. Basta a pessoa ter 18 anos que automaticamente ele ganhará uma carteira de motorista e sairá guiando pelas ruas da cidade. A lógica é a mesma. O aluno passa pela sala de aula, ou muitas vezes sequer passa, mas o diploma tem que vir a qualquer custo. Se não vier, a culpa é do professor. Universidades poderiam ser substituídas por cartomantes. Ao invés de cinco anos suados no banco de uma universidade, cinco minutos e seu futuro profissional decidido.
É uma hipocrisia o desfile de certificados de segundo grau que batem às portas das empresas a cada dia. Qualquer empresa hoje, por piores que sejam as condições de trabalho e de salário, pode exigir dos seus empregados o "segundo grau completo". Ótimo. Ótimo no papel. Porque o certificado iguala todos, os que têm e os que não têm condições. Iguala por baixo. O sistema de ensino que serviria para incluir mais pessoas na fatia economicamente ativa, é na verdade uma grande bola de neve altamente excludente. Quando em uma seleção para emprego ruim pode dar-se ao luxo de exigir o "segundo grau", é porque a oferta de pessoas com tal certificado é muito grande. Lei de mercado. Paga-se menos pelo melhor. O ciclo da pobreza se perpetua. Continuo acreditando que a forma mais segura de uma família pobre melhorar seu padrão de vida, seja através do educação. Educação com qualidade. Para que o processo seja gradual, mas sólido. Onde uma geração possa ter reais condições de superar a outra.
Não se espantem se em breve haverá vagas para bóia-fria e camelôs onde o segundo grau será exigido. Eu não tenho nada contra profissões de base como um gari ou um lixeiro. São profissões dignas como qualquer outra, mas quando o maldito "segundo grau" passa a ser exigido para estas profissões é porque está banalizado demais. E porque o momento permite que seja pré-requisito. A diferença entre uma seleção de gari de vinte anos atrás e a de hoje é nenhuma. Nenhuma mesmo. Só que o gari de antigamente era um analfabeto com orgulho de ter vindo para cidade de conseguir um emprego digno. O gari de hoje é um analfabeto institucionalizado, frustrado porque disseram que se ele ganhasse o diploma a vida seria bem melhor. E não foi. Se o sistema educacional fosse sério e não esta grande piada sem graça, e realmente a força de trabalho fosse alfabetizada, então o tal "segundo grau" poderia e deveria ser exigido.
Gostaria na verdade que o sistema de ensino fosse justo com os alunos. Não um ceifador de sonhos impossíveis e promessas não alcançadas. Quem tem condição passa, quem não tem, não passa. Simples assim. Óhhhh, que maldade. Não, não é maldade não. Maldade é essa nossa realidade que empurra os poucos que teriam condições de sair da favela, de volta à favela. Afinal, todos têm o maldito do segundo grau.
E antes que me chamem de reacionária, direita radical, patricinha bem nascida, eu vim de família pobre, estudei minha vida inteira em escola pública, passei na universidade federal (entre os 10 primeiros da lista geral). Sou do tempo que educação era mérito e não apenas um papel. Só não sou da área de humanas, por isso para o inferno àqueles que ficarem catando meus erros de português. Ou melhor, olhem para países como Índia e China que estão mudando o centro econômico do planeta porque investiram em educação. De forma responsável.
enviada por Dagmar
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